lembrei de um conto de fadas que li quando criança. nunca vi alguém falando sobre ele então resolvi escrever eu mesmo
barba azul é um conto de fadas escrito por charles perrault, o mesmo autor de chapeuzinho vermelho, bela adormecida, cinderella e o gato de botas, além de outros contos. pelo visto ele que começou o gênero conto de fadas, então barba azul é um dos contos mais antigos que há
em resumo, a história é sobre um conde rico, nosso barba azul, que procurava uma mulher para se casar. ele vai até a casa de uma senhora e pede para que ela dê uma de suas filhas em casamento. as filhas, porém, sabiam que as seis outras esposas dele haviam desaparecido, além de acharem a barba azul dele feia. então ele decide levá-las para festas, onde a irmã mais nova se vislumbra com as riquezas do conde. ela então decide se casar com ele. após um mês do casamento, o conde precisa viajar por seis semanas, deixando a esposa sozinha. ele dá a ela as chaves da casa e diz a ela que ela poderá aproveitar tudo o que tem, porém não deverá ir em um dos quartos em nenhum momento. após o conde ir embora, a esposa abre a porta do quarto proibido e lá está o corpo das outras esposas. a mulher deixa a chave do quarto cair, que suja ela de sangue. após o conde voltar da viajem, ele nota a chave ensanguentada e parte para atacar a esposa. porém, ela foge para a torre mais alta da casa. quando o barba azul entra na torre, os irmãos da esposa chegam e matam o barba azul
por algum motivo ele era o meu conto de fadas favorito. não lembro exatamente o que me fazia gostar tanto dele. eu lembro que o livro que eu li era ilustrado e as únicas duas imagens que eu me lembro eram a chave ensanguentada, preta e com a parte de trás da chave redonda com quatro furos, parecendo um botão, e a sala escondida, que era só uma sala com paredes de tijolos de pedra e uma poça de sangue no chão
acho que eu gostava dessa história por ser extremamente brutal. era diferente dos outros contos de fadas, que geralmente eram adaptados para serem menos violentos. na época eu nem sabia que era também um conto de fadas, dado o quão pesado a história é
eu lembro que eu gostava da esposa, não lembro o por quê. ela não tem nenhuma qualidade que me apetece. talvez eu tenha gostado da ilustração dela? mas eu não lembro de como ela era desenhada. talvez pelo fato de ela mesma ter se colocado em perigo, em contraste com histórias como chapeuzinho vermelho, que o perigo vai atrás da personagem
as vezes eu gostava de me imaginar como o barba azul. não por que eu gostava de assassinar esposas, mas eu gostava muito da ideia de ter uma sala secreta na própria casa. evidência disso eram meus mundos antigos no minecraft que eu sempre tinha uma sala secreta por nenhum motivo já que eu jogava sozinho
essa história me lembra tanto a caixa de pandora e o gênesis. três histórias sobre mulheres que se deixam levar pela curiosidade, trazendo problemas para elas. não posso dizer que aprendi muito com elas
aproveitando o tema, quero mencionar a diferença entre "curiosidade" e "anseio pela sabedoria". a curiosidade é o desejo imponderado por mais informação, ignorando o que de bom ou mau a acompanha. podemos imaginar alguém interessado em métodos suicidas, ou até alguém fixo em ideias desesperadoras. ora contrapõem com "curiosidade mórbida", mas eu nunca ouvi alguém dizer "a curiosidade mórbida matou o gato". o anseio pela sabedoria seria o desejo pela informação boa. isso incluiria até a própria ideia de como discernir o que é informação boa ou não
toda boa informação é boa em pelo menos três aspectos: precisão, clareza e propósito
precisão se refere ao quão bem a informação reflete a realidade. uma informação falsa é incapaz de refletir a realidade. uma justificativa também ajuda na precisão do fato, de modo que mesmo se a informação for errônea, pode se considerar a justificativa como imprecisa, permitindo a busca por melhores justificativas. uma informação baseada em instinto pode ser mais precisa. "não choveu" é menos preciso que "sinto que choveu", que é menos preciso que "choveu", que é menos preciso que "choveu hoje", que é menos preciso que "choveu hoje pois a rua está molhada"
clareza se refere ao quão bem a informação é comunicada. o ideal é usar a norma culta. "norma culta" não significa usar palavrões vaidosos e vazios e clichês, mas escrever de acordo com as regras da gramática. é comum ouvir dizer que a linguagem coloquial não é errada1, mas ela frequentemente atrapalha na clareza, então o melhor é evitar. palavras vazias que não adicionam nada à informação central também prejudicam. "caiu água" é menos claro que "certamente que precipitou", que é menos claro que "realmente choveu", que é menos claro que "choveu"
1 | que é mentira, pois o português é um idioma com gramática oficial. muitas vezes argumentam (até professores) que chamar a linguagem coloquial de errada é discriminar pobres. no mínimo, isso é desonesto, pois ninguém está dizendo que "é errado" no sentido de "moralmente indesejável", apenas que não segue as regras gramaticais estabelecidas. no máximo, isso é um atentado contra a língua portuguesa e a cultura brasileira, jogando fora séculos de tradição linguística erguidas e preservadas pelas melhores mentes brasileiras e portuguesas. no meio, afirmar que é discriminar pobres é a própria discriminação, pois implica que falar e escrever errado é natural ao estado de pobreza. posso afirmar que já vi as mais diversas classes sociais brasileiras se comunicando e todas elas falam errado, e ironicamente, os pobres são os que mais tendem a se preocupar com a escrita correta
propósito se refere ao bem que a informação dispõe. ensinar métodos suicidas com precisão e clareza não serve nenhum bom propósito, então não pode ser considerada boa informação. informações corretas, mas que são usadas para levar ao erro também não podem ser chamadas de boas. se alguém pergunta "pregos ou parafusos?" sendo parafusos a resposta adequada, "parafusos são mais caros" seria má informação, pois pode levar a crer que pregos seriam melhores para essa situação, mesmo que a informação seja clara e correta